Há uma altura do ano em que Coimbra parece mudar de ritmo. Depois dos meses de verão, setembro traz de volta milhares de estudantes. As ruas da Alta recuperam o movimento e a Universidade prepara-se para receber uma nova geração. Aos poucos, as capas negras voltam a fazer parte da paisagem e a vida académica regressa aos cafés, às praças e às ruas que há séculos acompanham estudantes de diferentes partes do país e do mundo.
Numa cidade profundamente marcada pela sua Universidade, o regresso às aulas é muito mais do que o início de um novo ano letivo. É o reencontro de Coimbra com uma das partes mais importantes da sua identidade. Fundada em 1290 por D. Dinis, a Universidade de Coimbra é a mais antiga de Portugal e uma das mais antigas da Europa. Depois de ter alternado entre Lisboa e Coimbra, instalou-se definitivamente na cidade em 1537 e, desde então, gerações de estudantes têm ajudado a moldar a Coimbra que hoje conhecemos.
Mas para perceber verdadeiramente esta ligação não basta entrar no Paço das Escolas ou visitar a Biblioteca Joanina. A Universidade estende-se muito para além das suas portas. Está nas ruas da Alta, nas Repúblicas, nos cafés, nas tascas, nas Escadas Monumentais percorridas diariamente por estudantes e nas tradições que continuam a passar de geração em geração.
É também nas ruas que encontramos um dos símbolos mais fortes dessa herança académica: o traje. Vestidos de negro e com a capa sobre os ombros, os estudantes tornaram-se parte da própria paisagem de Coimbra. E o percurso universitário continua a ser marcado por tradições, desde a Festa das Latas e Imposição de Insígnias, associada à chegada e integração dos novos estudantes, até à Queima das Fitas e ao Rasganço, ligado à conclusão do percurso académico.
Para conhecer mais de perto esta herança, vale também a pena visitar o Museu Académico. O percurso leva-nos por diferentes dimensões da vida estudantil de Coimbra, do ambiente das Repúblicas e da Queima das Fitas às salas de aula e à música, reunindo memórias que ajudam a compreender a relação única entre a Universidade, os estudantes e a cidade.
Há tradições que se veem e outras que se ouvem. O Fado de Coimbra, acompanhado pelo som inconfundível da guitarra de Coimbra, cresceu profundamente ligado ao meio universitário e tornou-se uma das expressões culturais mais marcantes da cidade. Das serenatas às noites de fado, música e tradição contam também a história de gerações que encontraram nas canções uma forma de cantar Coimbra, os amores, as despedidas e a própria vida estudantil.
Até o futebol conta uma parte desta história. A Académica nasceu ligada à Associação Académica de Coimbra e, durante décadas, muitos dos seus jogadores foram também estudantes da Universidade. O negro do equipamento, numa referência ao traje académico, tornou-se um dos símbolos mais reconhecíveis da Briosa, refletindo uma ligação entre futebol, Universidade e vida estudantil que lhe conferiu uma identidade única no panorama desportivo português.
É talvez isso que torna Coimbra tão particular. Aqui, a Universidade não existe apenas dentro dos seus edifícios. Faz parte da forma como a cidade vive, canta, celebra e se encontra. Está nas capas negras que descem da Alta, nas Repúblicas, no Fado, na Académica e nas memórias que milhares de estudantes levam consigo quando, alguns anos depois, chega o momento de partir.
Para quem visita Coimbra, percorrer a Alta no início do ano académico é uma forma particularmente interessante de perceber esta relação entre a Universidade e a cidade. A partir do Hotel Oslo Coimbra, é possível subir a pé da Baixa até à Universidade, atravessando ruas onde a presença estudantil faz parte do quotidiano, entre cafés, Repúblicas e monumentos que contam diferentes capítulos da mesma história.
Em setembro, tudo começa de novo. Há quem chegue a Coimbra pela primeira vez e quem regresse para mais um ano. As ruas recuperam o ritmo académico e a tradição que se descobre nos monumentos volta a revelar-se também fora deles. Afinal, compreender Coimbra é também compreender os seus estudantes, que há mais de sete séculos chegam de diferentes lugares, vivem a cidade, criam memórias e, quando partem, levam consigo um pouco dela.



