Junto ao Rio Mondego, num edifício que durante décadas esteve ligado ao fornecimento de água e ao funcionamento da cidade, Coimbra ganhou um novo espaço dedicado aos livros, ao pensamento e ao encontro. A antiga Estação Elevatória de Coimbra renasceu como Biblioteca Carlos Fiolhais, fruto da doação do vasto acervo pessoal do professor, com mais de 40 mil documentos, entre livros, publicações periódicas e materiais áudio e audiovisuais.
Há algo profundamente simbólico nesta mudança: onde antes se elevava água, eleva-se agora cultura. A frase é do próprio Carlos Fiolhais, que descreve o espaço como uma “casa de cultura” ao serviço da comunidade. Esta ideia define o espírito do projeto: não se trata apenas de guardar livros, mas de os pôr em circulação, abrir conversas e devolver o conhecimento à cidade, transformando uma coleção privada num bem comum.
O edifício, datado de 1922, conheceu diferentes usos ao longo do tempo, mas a intervenção atual procurou preservar a sua memória, adaptando-o à sua nova função de biblioteca e centro de tertúlias.
Carlos Fiolhais é uma das figuras mais reconhecidas da divulgação científica em Portugal. Professor catedrático emérito da Universidade de Coimbra, autor de dezenas de livros e antigo diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, construiu ao longo de décadas uma relação profunda com a ciência e a partilha do saber. A criação desta biblioteca prolonga esse percurso, oferecendo à cidade um novo ponto de encontro que iniciou atividade em outubro de 2024, preparando caminho para a sua inauguração oficial em janeiro de 2026.
Nesta fase, estão já disponíveis cerca de cinco mil livros, mas a incorporação total do acervo será gradual, permitindo que o espaço cresça organicamente. A programação regular já inclui conversas com escritores, exposições e concertos, reforçando a ideia de uma biblioteca dinâmica, muito para além do modelo tradicional de sala silenciosa e estantes fechadas.
Aberta sobre o rio e integrada no Parque Manuel Braga, a biblioteca aproxima os livros da vida quotidiana e da Baixa da cidade. Não é apenas um lugar de consulta, mas um espaço de permanência e convívio, onde a ciência, a literatura e a cidadania coexistem entre a sombra das árvores e o correr do rio.
Coimbra sempre viveu rodeada de bibliotecas, de estudo e de circulação de ideias. Esta nova biblioteca não surge, por isso, como um corpo estranho, mas como continuação natural dessa vocação. Ao mesmo tempo, há nela qualquer coisa de novo: o gesto de transformar uma coleção reunida ao longo de uma vida num património acessível a todos.
A Biblioteca Carlos Fiolhais é mais do que um novo espaço cultural. É um lugar onde o património técnico da cidade encontra um novo uso, onde os livros deixam de estar fechados sobre si mesmos e voltam a circular, e onde Coimbra ganha mais um espaço para ler, pensar, conversar e ficar.



