Em 2022, num período ainda marcado pela solidão deixada pela pandemia e pela desagregação dos laços sociais, Vânia Couto lançou um convite simples: criar um espaço onde mulheres se pudessem encontrar e cantar juntas. A intenção não era fundar um projeto ambicioso, mas devolver a possibilidade de convívio, partilha e presença. Era preciso voltar a estar em comunidade. Foi dessa necessidade que nasceu o Coro das Mulheres da Fábrica.
Ao primeiro convite apareceu um verdadeiro “molho de gente”: juntaram-se dezenas de mulheres, revelando que aquela vontade não era isolada. De diferentes idades, percursos e nacionalidades, chegaram com experiências distintas: algumas nunca tinham cantado em público; outras tinham formação musical; outras procuravam simplesmente um lugar onde estar sem pressa nem julgamento. A música tornou-se o ponto de encontro, mas o que ali começou a formar-se ultrapassava a ideia de um grupo coral.
O nome surgiu naturalmente do espaço onde ensaiam, uma antiga fábrica de camisas na Baixa de Coimbra, coração histórico da cidade e ponto tradicional de encontro da região. Rapidamente ganhou, porém, dimensão simbólica. A palavra “fábrica” evoca as operárias, o trabalho invisível e as lutas por direitos e reconhecimento. Ao assumirem-se como operárias da voz, afirmam que a voz também se trabalha. Trabalha-se a voz cantada, mas também a voz falada: aprende-se a ocupar espaço, a ganhar presença e a existir em conjunto.
O objetivo foi desde o início criar um espaço exclusivamente feminino, um ambiente multigeracional e multicultural onde todas cabem, independentemente da formação musical. A aprendizagem é horizontal, inspirada nas tradições polifónicas onde se aprendia ouvindo e repetindo. A ausência de partituras é uma escolha consciente. Cantar deixa de ser exibição e torna-se partilha.
Num tempo que exige desempenho constante e vidas exemplares, o coro valoriza a imperfeição. A perfeição, defendem, é um mito que desumaniza. Cantar implica vulnerabilidade e expor-se é um ato de coragem.
Muitas mulheres chegaram com medo, habituadas a ouvir que não sabiam cantar ou que era melhor ficarem em silêncio. Ao encontrarem um espaço onde o erro não é ridicularizado, mas integrado no processo, começaram a ganhar confiança. A experiência de cantar em conjunto transforma essa insegurança individual numa força coletiva. Hoje são mais de uma centena, e cantam cada vez melhor, mais alto e sem medo.
Cantar juntas é, dizem, um gesto transformador. O que importa não é a perfeição técnica, mas a união das vozes. Nesse encontro cria-se pertença e reconhecimento, criando uma força que ultrapassa cada uma individualmente.
O repertório cruza música tradicional portuguesa com canções populares de outras geografias. Preservar o património é lembrar de onde se vem, mas não como peça estática. As canções mantêm-se vivas porque continuam a ser cantadas no presente.
As próprias mulheres resumem o que acontece ali em três palavras: celebração, humanização e processo de cura. Celebra-se o encontro e a própria existência. Humaniza-se num mundo acelerado, onde tantas vezes se esquece que somos apenas pessoas. E fala-se também de cura da solidão, do medo e do silêncio que ficou.
O Coro das Mulheres da Fábrica afirma-se, assim, não apenas pelo que canta, mas pelo espaço que cria. Um espaço onde a voz deixa de ser contida e passa a ocupar lugar. Onde cantar não é exibir talento, mas existir em conjunto.



