A 1 de março, a Rádio Universidade de Coimbra celebra 40 anos de emissão. Quatro décadas marcadas pela formação, pelo debate e por uma programação cultural que ajudou a moldar a identidade sonora da cidade.
Embora a data oficial remonte a 1986, as raízes da RUC recuam à década de 40, quando o Centro Experimental de Rádio, então secção da Associação Académica de Coimbra, realizava emissões em circuito interno destinadas às cantinas universitárias. Era um espaço de aprendizagem técnica e de experimentação criativa — o embrião daquilo que viria a ser uma rádio verdadeiramente universitária. Uma rádio feita por estudantes, para estudantes, mas aberta ao mundo.
A 1 de março de 1986 nasce oficialmente a Rádio Universidade de Coimbra. Em 1988, com a atribuição do alvará, passa a emitir 24 horas por dia nos 107.9 FM, tornando-se o primeiro órgão de comunicação social inteiramente composto e gerido por estudantes universitários. Ao longo dos anos, afirmou-se como rádio-escola, formando locutores, jornalistas e técnicos, mas também como um espaço de liberdade editorial raro no panorama radiofónico nacional. Foi também ponto de partida para várias carreiras no jornalismo português. Pelos seus estúdios passaram nomes como Sansão Coelho, Edgar Canelas ou Joaquim Reis, que ali deram os primeiros passos antes de se afirmarem no panorama mediático nacional. Entre os antigos membros encontra-se também Gonçalo Quadros, cofundador da Critical Software, sinal de que a marca da RUC se estende muito além da comunicação social.
A RUC construiu-se em várias frentes: formativa, informativa, académica e cultural. Todos os anos entram novas vozes que aprendem a fazer rádio na prática: da redação à locução, da reportagem à técnica. Ao mesmo tempo, mantém uma ligação constante à vida académica, transmitindo serenatas, assembleias magnas e outros momentos simbólicos da Universidade.
No desporto, transmite desde 2001 os jogos da Académica, com um relato assumidamente apaixonado que faz parte da sua identidade. Na música, tornou-se espaço de descoberta. O programa Santos da Casa, no ar desde os anos 90, é um dos exemplos mais emblemáticos dessa missão: dedicado à música portuguesa contemporânea, deu palco a artistas emergentes quando ainda estavam fora dos grandes circuitos. Ali ouviram-se primeiras maquetes, primeiros discos e entrevistas que antecederam percursos hoje consolidados. Artistas como Ornatos Violeta, The Gift, Capicua ou Linda Martini passaram pelas playlists e entrevistas da estação em fases iniciais dos seus percursos, reforçando o papel da RUC como plataforma de descoberta.
Mais do que uma frequência, a RUC é um espaço de aprendizagem e de construção coletiva. Um projeto movido maioritariamente por estudantes, mas que integra também antigos membros e colaboradores da cidade, num espírito voluntário que faz parte da sua identidade. Aprende-se fazendo, experimenta-se sem medo e constrói-se pensamento crítico ao mesmo tempo que se constrói rádio.
Quatro décadas depois, a Rádio Universidade de Coimbra continua a ser escola, laboratório e palco. Uma rádio que nasceu na academia, mas que há muito se tornou património vivo da cidade.



