Há figuras que pertencem aos livros de História. E há outras cuja presença continua a sentir-se séculos depois, nas ruas, nos monumentos e na identidade de uma cidade. Em Coimbra, D. Dinis é uma dessas figuras.
Conhecido como o Rei Lavrador, o Rei Trovador e um dos monarcas mais marcantes da história de Portugal, D. Dinis deixou um legado muito para além da agricultura, da poesia ou das reformas do reino. Foi também ele quem tomou uma das decisões mais importantes para o futuro de Coimbra, lançando as bases da cidade universitária que hoje a distingue em todo o mundo.
Quando subiu ao trono, em 1279, Portugal vivia um período de estabilidade territorial. Sem a necessidade de conquistar novas fronteiras, D. Dinis dedicou o seu reinado ao fortalecimento do país. Reformou a administração, incentivou a agricultura, promoveu o comércio, consagrou a língua portuguesa como língua oficial dos documentos do reino e afirmou-se como um dos grandes impulsionadores da cultura. Poeta e trovador, escreveu dezenas de cantigas e fez da sua corte um importante centro literário da Península Ibérica.
Entre todas as decisões que marcaram o seu reinado, houve uma que mudaria para sempre a história de Coimbra. Em 1290, D. Dinis assinou o documento “Scientiae thesaurus mirabilis”, criando o primeiro Estudo Geral português, reconhecido no mesmo ano pelo Papa Nicolau IV. Nascia assim a primeira universidade do país e uma das mais antigas da Europa.
Embora a instituição tenha começado por funcionar em Lisboa e tenha alternado entre as duas cidades durante vários séculos, foi em Coimbra que encontrou a sua casa definitiva, em 1537. A partir desse momento, a cidade transformou-se progressivamente no maior centro universitário de Portugal, fazendo do conhecimento uma parte inseparável da sua identidade.
Mais de sete séculos depois, é difícil imaginar Coimbra sem a Universidade. As capas negras, a tradição académica, as serenatas, os estudantes vindos de todo o mundo e o reconhecimento como Património Mundial da UNESCO fazem parte da imagem da cidade. Embora muitas destas características tenham surgido séculos após o reinado de D. Dinis, todas encontram a sua origem na decisão tomada pelo monarca, em 1290, de criar o ensino superior português.
A ligação entre D. Dinis e Coimbra permanece também gravada na própria cidade. A sua estátua, junto ao Paço das Escolas, continua a acompanhar diariamente gerações de estudantes que entram na Universidade cuja origem remonta à visão do rei há mais de sete séculos. Um símbolo discreto, mas profundamente ligado à história universitária de Coimbra.
O maior legado de D. Dinis, porém, talvez seja invisível. Está no ambiente académico que se vive pelas ruas da Alta, na convivência entre tradição e conhecimento e na capacidade que Coimbra continua a ter para receber estudantes, investigadores e visitantes de todo o mundo. Mais do que fundar uma universidade, D. Dinis ajudou a moldar a identidade de uma cidade que, mais de 700 anos depois, continua a viver do conhecimento, da cultura e da juventude.



